segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Os contabilistas americanos do PS


Primárias PS secundarizam Portugal




Nos números inteiros, em Portugal e na Europa, o separador dos milhares é um espaço em branco ou um ponto [ . ].
10 679 ou 10.679

E nos números decimais, também em Portugal e na Europa, a vírgula [ , ] separa a parte inteira das casas decimais, inclusive nas percentagens.
69,41%

Em Portugal é assim porque seguimos um padrão europeu, mas nos EUA é exatamente o contrário, usam a vírgula [ , ] como separador de milhares nos inteiros e o ponto [ . ] separa as casas decimais dos algarismos que a antecedem.

Ora veja como são apresentados os resultados das primeiras Primárias do PS:

Destaque


https://www.psprimarias2014.pt/#resultados

Embora caído em desuso, o termo estrangeirado, tão usado há um par de séculos, é a marca de água deste apuramento.

De facto, os tempos são outros e os excel dos nossos dias são versáteis o suficiente para se usar o padrão nacional de escrita e não o que outros preferem e a nós baralha.

E o PS só ganharia em mostrar neste quadro as suas raízes portuguesas em vez de se render à abúlica dependência do consultês que por aí prolifera.

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quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Jornalistas hortofrutícolas




Editorial
O que esconde o secretário-geral da Assembleia da República?
Por Direcção Editorial
24/09/2014 - 21:06
É chocante a atitude de Albino Azevedo Soares. Porque é superficial, escorregadia e no mínimo parece desonesta. E porque coloca o país a pensar no que mais estará a esconder.


Este é um editorial hortofrutícola do Público subscrito pela sua Direção Editorial, mas outros jornalistas, neste e noutros jornais, têm pegado no tema e exibido os pés de barro do Passos, o ainda PM.

E ao falar-se de verdade jornalística é um imperativo ético evocar o nome de José António Cerejo que, no mesmo jornal, tantas e tão importantes peças tem publicado. Sempre no encalço de factos e testemunhosdesvendando corrupção e corruptos, arranjinhos, tráficos e negociatas.

E é nestas alturas, em que políticos poderosos escondem os seus rabos-de-palha, que jornalistas íntegros e corajosos revelam trafulhas e traficantes, indignos titulares de cargos que só devem ser exercidos por pessoas de bem.

Por outras palavras, são jornalistas com tomates! Homens e Mulheres.
Que viçosos se mantenham.

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segunda-feira, 22 de setembro de 2014

"Poema aos homens constipados"


A devida vénia ao autor, António Lobo Antunes



Pachos na testa, terço na mão,
Uma botija, chá de limão,
Zaragatoas, vinho com mel,
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher.
Ai Lurdes que vou morrer.
Mede-me a febre, olha-me a goela,
Cala os miúdos, fecha a janela,
Não quero canja, nem a salada,
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.
Se tu sonhasses como me sinto,
Já vejo a morte nunca te minto,
Já vejo o inferno, chamas, diabos,
Anjos estranhos, cornos e rabos,
Vejo demónios nas suas danças
Tigres sem listras, bodes sem tranças

Choros de coruja, risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes fica comigo
Não é o pingo de uma torneira,
Põe-me a Santinha à cabeceira,
Compõe-me a colcha,
Fala ao prior,
Pousa o Jesus no cobertor.

Chama o Doutor, passa a chamada,
Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada.
Faz-me tisana e pão de ló,
Não te levantes que fico só,
Aqui sozinho a apodrecer,
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer



António Lobo Antunes
(Sátira aos HOMENS quando estão com gripe)

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sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Cabazada da Jesus a Mourinho




Mourinho, sabe-se há muito, entrou no futebol como tradutor. Por isso sabe alguma coisa de gramática.

E Jorge Jesus nunca terá visto nem sequer um prontuário, mas sabe de futebol, como se sabe que não diz uma frase escorreita.

Ora numa troca de galhardetes sobre o Talisca, vai, não vai, é, não é conhecido no mercado da bola, José Mourinho pôs-se em bicos de pés para depreciar Jesus. Invocou Dumas, pôs o seu ar pimpão, aquele esgar empalhado, alegando pertencer a outro campeonato cognitivo.

Ficou mal no retrato. Ficou uma máscara roskoff, a mesma que tantos políticos mascara.

Pelo contrário, Jorge Jesus, sóbrio, sacudiu para canto, desvalorizando a diatribe daquele que considerou seu amigo.


Moral da história
Jesus, apesar de tropeçar na língua portuguesa, foi um digno adversário, mas o eloquente Mourinho não fez jogo limpo, em caneladas às quatro linhas.


quinta-feira, 18 de setembro de 2014

2014 ano da libertação da Guiné-Bissau?


Bons sinais da Guiné-Bissau


Esta tem sido uma boa semana para a Guiné-Bissau.

Logo na segunda-feira, o golpista António Indjai foi demitido da chefia da tropa guineense. Embora tardia, o PR tomou a decisão por que a Guiné-Bissau e os seus amigos ansiavam.

E soube-se ontem que o novo Chefe do Estado-Maior, general Nan Tan, se comprometeu a respeitar os órgãos de soberania. Desde que não seja uma fogachada de pólvora seca, é um eco da Guiné sadia, uma palavra de otimismo para um povo massacrado por sucessivos golpes e contragolpes militares. Militares, não, de chefões indignos, assassinos, gananciosos, apenas interessados em pilhar os diminutos recursos do país!

E hoje, afortunada cereja assenta no bolo da esperança dos guineenses: os governantes entregaram elenco dos seus bens pessoais.

Se às desta semana se juntarem, nos próximos meses e anos, outras boas notícias, será sinal de que a Guiné-Bissau está a encarrilar.

Mas, mínimo dos mínimos, já bastava que golpe e Kalashnikov, espancamento, catanada e morte violenta, prisões arbitrárias, humilhação de polícias ou libertação de presos na PJ por 'homens armados', não voltassem a atemorizar os guineenses.

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terça-feira, 16 de setembro de 2014

A Escócia, os engodos e a República Britânica



 Referendo na Escócia

"Prefiro ter certos poderes nas mãos de um rei do que nas de um político. As famílias reais têm mais valores éticos" Andrew Cairns, supervisor da estação central de autocarros de Edimburgo

http://expresso.sapo.pt/prefiro-ter-certos-poderes-nas-maos-de-um-rei-do-que-nas-de-um-politico-as-familias-reais-tem-mais-valores-eticos=f889550#ixzz3DSXgJHY2

Esta mentira, apesar de tantas vezes propagandeada, não passa de óbvia mentira.

De facto, tais famílias têm valores tão frágeis como o demonstra a sua ociosidade luxuosa, o exibicionismo parolo mascarado de haute couture e o exacerbado culto de viver à conta do orçamento nacional.

Famílias que apenas servem de engodo social e de atração turística. O caso mais evidente é o da monarquia britânica, constituída por dezenas de pavões e pavoas que alimentam jornais sensacionalistas e atraem turistas abúlicos.

Mas usam chapéus hortofrutícolas, esse marcante sintoma de esquizofrenia pandémica.

Ora a independência da Escócia pouco nos diz, mas o redesenhar das fronteiras europeias não promete bons ventos. E a verdade é que a Europa tem outras prioridades e uma das mais imperiosas é a de inspirar confiança em inquestionáveis valores éticos...

Por que não gastam os escoceses as suas energias na criação da Great British Republic, regime em que ninguém está acima da lei!?




sábado, 13 de setembro de 2014

A coragem dos políticos



Homem morre em largada de toiros na Moita
http://www.sol.pt/noticia/114968


Morre um Cidadão e não há político com coragem para pôr o dedo na ferida, desmascarar a causa desta morte: a sanguinolenta e mórbida obsessão pelas toiradas.

E coragem não é só a de cortar rendimentos aos mais frágeis, como a trupe do Passos tem vindo a fazer há anos.

Neste caso, a morte de um Cidadão numa toirada, fica demonstrada a sua autoria moral por negligência municipal e do Estado.

Cabe aos Municípios e ao Estado proteger os cidadãos, mesmo os que querem suicidar-se na praça pública.


Por isso as touradas e sucedâneas devem ser proibidas. A exemplo do que, noutro tempo, fez o Marquês de Pombal.

Mas, para isso, é preciso ter "unhas" como as de Sebastião José de Carvalho e Melo. Ele que enfrentou marialvas e peralvilhos, negociantes de gado e populaça boçal, batendo o pé ao próprio rei.

E só Estadistas, gente com visão estratégica e não políticos que lambem as botas às Merkl que nos rodeiam, terão coragem para impedir que mais algum português seja morto por um toiro.


domingo, 7 de setembro de 2014

Durão que vá para a bicha do Centro de Emprego



"A realidade é que ainda existem grandes diferenças entre os Estados-membros. Não estamos onde queremos estar em termos de crescimento e criação de emprego, o desemprego é possivelmente um dos problemas mais graves que ainda temos". Durão Barroso dixit.
http://www.sol.pt/noticia/114578

Durante anos não se lhe ouvia uma palavra meses a fio. O que até foi bom...

Mas desde que começou a arrumar os papéis em Bruxelas, e de olho num poleiro português, não nos larga o ecrã. Agora, os seus avençados fazem-nos chegar estas banalidades.

Banalidade 1: "... ainda existem grandes diferenças entre os Estados". Se estivesse calado ficávamos a saber o mesmo!

Banalidade 2: "Não estamos onde queremos estar em termos de crescimento e criação de emprego...". Grande novidade!


Ele que vá procurar um tacho no Centro de Emprego ! E na bicha, que diga estas balelas aos desempregados que anseiam por trabalho...

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terça-feira, 2 de setembro de 2014

Ó Sr. Prof. Dr. Eng.!

Transcrição integral com grata vénia ao desempoeirado texto de
Lucy Pepper

doctor doctor

A utilização de títulos é muito importante em Portugal.

Na Grã-Bretanha, existem muitos títulos. Há Lords e Ladies, Dames, Dukes e Sirs, e não devemos esquecer Majesties e Highnesses. No entanto, acontece que não há muitas pessoas com títulos desse género. Existem, por outro lado, os títulos profissionais: por exemplo, “Reverend” para os padres anglicanos, “Doctor” para os médicos (até chegarem a “consultants”, quando se tornam Mr. ou Mrs. de novo), ou “Professor” para os catedráticos nas universidades. Fora das forças armadas e da magistratura, não há outros títulos profissionais. Existem, claro, pessoas que levam os títulos demasiado a sério, mas há ainda mais que lhes ligam nenhuma.


Até o uso de Mr. ou Mrs. (ou Miss ou Ms.) se reduziu muito nestes últimos cinquenta anos. São formas utilizados de uma maneira parecida à de Sr. e Srª. em Portugal, para mostrar um certo respeito, falta de reconhecimento, ou para manter uma distância saudável de pessoas que não suportamos. Estas formas de tratamento são muitas vezes esquecidas logo que se estabelece uma razoável familiaridade entre as pessoas, até no emprego. Não me lembro de alguma vez ter chamado Mr. ou Mrs. a um chefe.


O título Dr. é utilizado para anunciar publicamente que essa pessoa dá jeito no caso de nos encontrarmos doentes, e não para suscitar adulação ou respeito (as pessoas com doutoramentos podem intitular-se Dr., mas muitas não usam o título, talvez para evitarem ser chamadas num avião quando outro passageiro sofre um ataque cardíaco.)


Na Grã-Bretanha, os veterinários não são Drs., e os arquitectos não têm título, nem os engenheiros. Estes profissionais usam letras a seguir aos seus nomes, para utilizarem em sítios oficiais, para explicarem que são qualificados e registos com as instituições respectivas, mas não há veterinário que espere de um agricultor humilde que lhe diga: “Bom dia, Mr. Harris, BVetMed MRCVS, pode dar uma vista de olhos à minha vaca, se faz favor?” Os professores não têm título profissional, nem os outros diplomados, com a excepção dos de medicina.


Em Portugal, também há muitos títulos… e muitas e muitas pessoas que os usam.
Há tantos doutores que não há nada de especial em ser doutor. Doutores de medicina SÃO especiais, e estarei sempre disposta a chamar-lhes o que quiserem, sempre que a minha vida estiver nas suas mãos.


Se o leitor é arquitecto, irrita-se se o pedreiro não lhe chamar Sr. Arquitecto em sinal de respeito, mesmo sabendo que pelas suas costas ele lhe chama idiota? E o leitor chama-lhe o quê a ele? Sr. Pedreiro? Não, chama-lhe o Zé (ou talvez “Sôr” Zé). Se você é engenheiro, sente-se respeitado porque uma pessoa utiliza o seu título correcto, mesmo que eles se riam da sua insistência em ser chamado Sr. Engenheiro?


É tudo porque quer ser respeitado publicamente, não é? Mais: quer ser considerado melhor do que os outros e tratado melhor do que os outros, só porque tem uma licenciatura ou mestrado desta ou daquela espécie?


Clamar por respeito é pouco digno e absurdo, porque o respeito devia-se ganhar (para além de ser simplesmente merecido quando se é um ser humano decente) através do que uma pessoa realmente faz bem. Não? Parece que há pessoas que consideram os títulos académicos mais importantes do que o trabalho, do que curar, do que construir, do que ensinar, do que desenhar, do que a coisa que realmente nos define e justifica o respeito dos outros — o trabalho duro e honesto.


Aos meus olhos estrangeiros e patetas, todos estes títulos revelam falta de auto-estima. Quase ninguém parece capaz de quebrar a tradição, e de dizer “por amor de deus, chame-me Zé, não Sr. Dr. Prof. Eng.”. E assim, o sistema dos títulos excessivos continua, de tal modo que dá ideia de que o respeito público depende de um mero título universitário.


É uma grande pena, porque Portugal realmente tem muitas, mas muitas pessoas que merecem respeito e justificam orgulho, sem precisarem de ser doutores.


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segunda-feira, 18 de agosto de 2014

António Costa, edil da pedinchice licenciada



Anteontem, na Rua Augusta, uma agente da Polícia Municipal interpelou dois músicos, dos que têm à frente a caixa de um instrumento para recolha de dádivas. Pelos gestos percebeu-se que não podiam tocar ali sem licença. Embrulharam a trouxa e zarparam.

Mas, a poucos metros, um trio de ociosos com pinta de pedintes encartados, tinham à sua frente uma bolsita espalmada no chão como chamariz de algumas moedas.

Não foram incomodados pela PM, tal como nada aconteceu a uma mulher muito degradada deitada no meio da rua a uns metros dos músicos recambiados da baixa.

Moral da história:
.António Costa, o presidente da câmara de Lisboa e candidato a candidato a Primeiro-Ministro, pactua com a pedinchice pura e dura, mas abre os braços à mendicidade musical licenciada, isto é, a que dá lucro ao município.

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domingo, 17 de agosto de 2014

O metro quadrado das hortas de Algés




As paralelas ruas Jerónimo Osório e Damião de Góis andam a competir com as suas micro hortas.

Na primeira há mais jardins, também de metro quadrado, embora oscilando entre o abandonado e a farfalhuda, essa sim, uma prometedora horta.




Já na da rua do historiador é patente o cuidado com que é tratada a horta de 1 metro quadrado. Bem medido, segundo a inspirada placa...

Num país em que tantas das suas ruas têm as árvores rodeadas de dejetos canídeos, pelo menos Algés tem quem brinque aos hortelões. E com humor. Antes issso!



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sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Cuba, o inferno das quatro classes sociais


Só o título é Formigarras



Cuba, o inferno no paraíso

Na crônica da semana passada, tentei, pela milésima vez, aderir ao comunismo. Usei todos os chavões que conhecia para justificar o projeto cubano. Não deu certo. Depois de 11 dias na ilha de Fidel Castro, entreguei de novos os pontos.

O problema do socialismo é sempre o real. Está certo que as utopias são virtuais, o não-lugar, mas tanto problema com a realidade inviabiliza qualquer adesão. Volto chocado: Cuba é uma favela no paraíso caribenho.

Não fiquei trancando no mundo cinco estrelas do hotel Habana Libre. Fui para a rua. Vi, ouvi e me estarreci. Em 42 anos, Fidel construiu o inferno ao alcance de todos. Em Cuba, até os médicos são miseráveis. Ninguém pode queixar-se de discriminação. É ainda pior.

Os cubanos gostam de uma fórmula cristalina: ‘Cuba tem 11 milhões de habitantes e 5 milhões de policiais’. Um policial pode ganhar até quatro vezes mais do que um médico, cujo salário anda em torno de 15 dólares mensais. José, professor de História, e Marcela, sua companheira, moram num cortiço, no Centro de Havana, com mais dez pessoas (em outros chega a 30). Não há mais água encanada. Calorosos e necessitados de tudo, querem ser ouvidos. José tem o dom da síntese: ‘Cuba é uma prisão, um cárcere especial.

Aqui já se nasce prisioneiro. E a pena é perpétua. Não podemos viajar e somos vigiados em permanência. Tenho uma vida tripla: nas aulas, minto para os alunos. Faço a apologia da revolução. Fora, sei que vivo um pesadelo. Alívio é arranjar dólares com turistas’. José e Marcela, Ariel e Julia, Paco e Adelaida, entre tantos com quem falamos,pedem tudo: sabão, roupas, livros, dinheiro, papel higiênico, absorventes.

Como não podem entrar sozinhos nos hotéis de luxo que dominam Havana, quando convidados por turistas, não perdem tempo: enchem os bolsos de envelopes de açúcar. O sistema de livreta, pelo qual os cubanos recebem do governo uma espécie de cesta básica, garante comida para uma semana. Depois, cada um que se vire. Carne é um produto impensável.

José e Marcela, ainda assim, quiseram mostrar a casa e servir um almoço de domingo: arroz, feijão e alguns pedaços de fígado de boi. Uma festa. Culpa do embargo norte-americano? Resultado da queda do Leste Europeu? José não vacila: ‘Para quem tem dólares não há embargo. A crise do Leste trouxe um agravamento da situação econômica. Mas, se Cuba é uma ditadura, isso nada tem a ver com o bloqueio’. Cuba tem quatro classes sociais: os altos funcionários do Estado, confortavelmente instalados em Miramar; os militares e os policiais; os
empregados de hotel (que recebem gorjetas em dólar); e o povo. ‘Para ter um emprego num hotel é preciso ser filho de papai, ser protegido de um grande, ter influência’, explica Ricardo, engenheiro que virou mecânico e gostaria de ser mensageiro nos hotéis luxuosos de redes internacionais.

Certa noite, numa roda de novos amigos, brinco que,quando visito um país problemático, o regime cai logo depois da minha saída. Respondem em uníssono:
Vamos te expulsar daqui agora mesmo’. Pergunto por que não se rebelam, não protestam, não matam Fidel? Explicam que foram educados para o medo, vivem num Estado totalitário, não têm um líder de oposição e não saberiam atacar com pedras, à moda palestina. Prometem, no embalo das piadas, substituir todas as fotos de Che Guevara espalhadas pela ilha por uma minha se eu assassinar Fidel para eles.

Quero explicações, definições, mais luz. Resumem: ‘Cuba é uma ditadura’. Peço demonstrações: ‘Aqui não existem eleições. A democracia participativa, direta, popular, é um fachada para a manipulação. Não temos campanhas eleitorais, só temos um partido, um jornal, dois canais de televisão, de propaganda, e, se fizéssemos um discurso em praça pública para criticar o governo, seríamos presos na hora’.

Ricardo Alarcón aparece na televisão para dizer que o sistema eleitoral de Cuba é o mais democrático do mundo. Os telespectadores riem: ‘É o braço direito da ditadura. O partido indica o candidato a delegado de um distrito; cabe aos moradores do lugar confirmá-lo; a partir daí, o povo não interfere em mais nada. Os delegados confirmam os deputados; estes, o Conselho de Estado; que consagra Fidel’.Mas e a educação e a saúde para todos? Ariel explica: ‘Temos alfabetização e profissionalização para todos, não educação. Somos formados para ler a versão oficial, não para a liberdade.

A educação só existe para a consciência crítica, à qual não temos direito. O sistema de saúde é bom e garante que vivamos mais tempo para a submissão’.José mostra-me as prostitutas, dá os preços e diz que ninguém as condena:’Estão ajudando as famílias a sobreviver’. Por uma de 15 anos, estudante e bonita, 80 dólares. Quatro velhas negras olham uma televisão em preto e branco, cuja imagem não se fixa. Tentam ver ‘Força de um Desejo’. Uma delas justifica: ‘Só temos a macumba (santería) e as novelas como alento.

Fidel já nos tirou tudo.Tomara que nos deixe as novelas brasileiras’. Antes da partida,José exige que eu me comprometa a ter coragem de, ao chegar ao Brasil, contar a verdade que me ensinaram: em Cuba só há ‘rumvoltados’.



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