sábado, 6 de novembro de 2010

Trincadelas curativas

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Pedregulhos sobe a pique,
nas descidas arrojado,
devoto de D. Henrique,
em petiscos consagrado.


Com taninos ardilosos,
faz amigos em dois tragos
e abraços copiosos.
Amigas, com mais afagos…


Certa noite, derreado,
em Afrodite viu Morfeu,
e por ninfas arpeado,
cravou bico no gineceu.


Despertando num frenesim,
filosofou, sentimental:
Rabo de Ovelha não cheira assim
e o estigma não é fatal!


São lembranças que a vida dá,
de gemidos e gritinhos;
esta é boa, aquela é má
e sempre por maus caminhos.


Celebrado caminheiro,
sonhando com mexilhões,
num barranco traiçoeiro
afundou-se aos trambolhões.


Foi à faca o andarilho…
Livre de dores e de telas,
Aristides, faz-te ao trilho
com tintol e trincadelas!




Manuel A. Madeira
Cabeço de Montachique, 6 de Novembro de 2010
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As luvas de pelica, o buraco e o "high cost"

As que vi eram pretas e não tinham laçarote


Nunca me tinha cruzado com hospedeiras da TAP com luvas de pelica. Das boas, das de pele finíssima!

Pois há um mês, lá estavam elas a receber-nos com tais luvas de frisos verdes a contrastar com o preto clássico. Ficam bonitas as raparigas e as senhoras.

Mas, mas, mas...

Hoje o avião é um meio de transporte, não uma passerelle, nem sequer o local mais indicado para exibição de guarda-roupa ou apresentação de fashion trends.

Será que o senhor Fernando Pinto, o presidente da empresa, e seus consultores financeiros, pensarão que tais  arremedos de elegância conquistam quota de mercado?

O que seguramente não fideliza é mandar os passageiros para uma bicha onde lhes entregam uma sandes e uma bebida. Nem sequer um mísero saco nos deram. Em Roma.

Um par de luvas de pelica equivale a quantas refeições ligeiras a bordo!?

As contas a vermelho, de que a TAP não se livra, seriam melhoradas se abandonasse o vestuário de luxo dos seus assistentes de bordo. Bastaria olhar para o lado.

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Utilitário multifunções

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Orvieto, Itália, 8.Out.2010


Como se faz um monstro [ III de IV]

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Numa tarde d'Outono, a sonolento trote
Um macho conduzia em cima do albardão,
Já coluna da Igreja, o novo sacerdote,
O muitíssimo ilustre e digno padre João.
Ao entrarem na aldeia os dois irracionais,
Dos foguetes ao grande e jubiloso estrépito
Um velho recebeu nos braços paternais,
Em vez do alegre filho, um monstro já decrépito
Que acabava de vir das jaulas clericais.
Que transfiguração! Que radical mudança!
Em lugar da inocente, angélica criança,
Voltava um chimpanzé, estúpido e bisonho,
Com o ar de quem anda alucinadamente
Preso nas espirais diabólicas dum sonho.
Seu corpo juvenil, robusto e florescente,
Vergava para o chão, exausto de cansaço:
Os dogmas são de bronze, e a lã duma batina
Já vai pesando mais que as armaduras d'aço.
A ignorância profunda, a estupidez suína,
A luxúria d'igreja, ardente, clandestina,
O remorso, o terror, o fanatismo inquieto,
Tudo isto perpassava em turbilhão confuso
Na atonia cruel daquele hediondo aspecto,
Na morna fixidez daquele olhar obtuso.
Metida nas prisões escuras de Loiola,
A sua alma infantil, não tendo luz nem ar,
Foi como os rouxinóis, que dentro da gaiola
Perdem toda a alegria e morrem sem cantar.



A velhice do padre eterno
Guerra Junqueiro
1885

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sexta-feira, 5 de novembro de 2010

A coragem tem um preço

João Silva, o português fotógrafo de guerra do The New York Times, é certamente um homem valente.

Só quem o é faz fotografias destas, a quente. Pagou por isso. Perdeu as pernas e talvez mais.


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Como se faz um monstro [ II de IV]

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Um dia o pai, um bravo aldeão,
Chamou-o ao pé de si, e disse-lhe:
                                              «João:
À força de trabalho e à força de canseiras,
A moirejar no monte e a levar gado às feiras,
Consegui ajuntar ao canto do baú
Alguns pintos. Vocês são dois rapazes; tu,
Além de ser mais novo, és mais inteligente.
Vou botar-te ao latim; quero fazer-te gente.
Hás-de me dar ainda um grande pregador.
Hoje padre é melhor talvez que ser doutor.
Aquilo é grande vida; é vida regalada.
Olha, sabes que mais? manda ao diabo a enxada.
Aquilo é que é vidinha! aquilo é que é descanso!
Arrecada-se a côngrua, engrola-se o ripanço,
Arranja-se um sermão aí com quatro tretas,
Vai-se escorropichando o vinho das galhetas,
E a missa seis vinténs e doze os baptizados.
Depois, independente e sem nenhuns cuidados!
Olha, João, vê tu o nosso padre-cura:
É, sem tirar nem pôr, uma cavalgadura,
Vi-o chegar aqui mais roto que os ciganos;
Pois tem feito um casão em meia dúzia d'anos.
Isto é desenganar; padres sabem-na toda...
É o sermão, é a missa, é o enterro, é a boda.
É pinga da melhor, e tudo quanto há!
Quando o abade morrer hás-de vir tu p'ra cá.
Despacha-te o doutor nas cortes; quando não
Votamos contra ele, e foi-se-lhe a eleição.
Mas que é isso, rapaz? Nada de choradeira!
É tratar da merenda, e quinta ou sexta-feira
Toca pró seminário. Eu quero ir para a cova
Só depois de te ouvir cantar a missa nova».



A velhice do padre eterno
Guerra Junqueiro
1885

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quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Meia lei anti-regabofe

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Proibido acumular reformas da Função Pública com salários

A partir de Janeiro vai ser proibida a acumulação de salários com pensões na Função Pública, já confirmado pelo Ministério das Finanças http://sol.sapo.pt/inicio/Economia/Interior.aspx?content_id=3618

É muito positiva esta meia lei, mas falta a outra metade, que envolva todas, mas mesmo todas, as instituições do Estado Português, incluindo o Presidente da República, o Banco de Portugal, a Caixa Geral de Depósitos e muitos etecéteras e outros tantos fundos de pensões, militares e civis.

Assim se reporá a justiça dos papa-reformas Aníbal Cavaco Silva, Mira Amaral, Alberto Jardim e sei lá mais quantos destes reformados dourados.

Coragem, senhor Teixeira dos Santos, não tenha medo aprofundar a moralização nem se condicione com o seu próprio futuro.

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Crueldade terrorista sob capa religiosa

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Depois de expirado o ultimato dado à Igreja Copta no Egipto para libertar as duas cristãs que se converteram ao Islão, a al-Qaida deixa o aviso: os cristãos são agora "alvos legítimos". http://aeiou.expresso.pt/al-qaida-cristaos-sao-agora-alvos-legitimos=f612974

Esta forma de terrorismo pretende perturbar os equilíbrios egípcio, iraquiano, europeu e por aí fora. E também as balanças comerciais turísticas do médio oriente. Mas a ameaça é mais ampla, porque os terroristas iraquianos que a proferem têm o dedo apontado ao mundo que não pactua com as suas diatribes.

Que fará a Europa além de medidas de emergência casuísticas a posteriori?

Imagino que muito pouco, pois a UE está com a cabeça afundada na areia. Sem Norte nem vontade, acomodada como acessório do império americano e sob o seu manto militar, entretém-se com os déficites e os PECs, a "Champions League" e as poses tão pomposas como ridículas de messier Barroso.

Enquanto isso, o novos inquisidores continuam a sua saga assassina.

???

Como se faz um monstro [ I de IV]

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Ele era nesse tempo uma criança loira
Vivendo na abundância agreste da lavoira,
Ao vento, à chuva, ao sol, pastoreando os gados,
Deitando-se ao luar nas pedras dos eirados,
Atravessando à noite os solitários montes,
Dormindo a boa sesta ao pé das claras fontes,
Trepando aos pinheirais, às fragas, aos barrancos,
No rijo e negro pão cravando os dentes brancos,
Radioso como a aurora e bom como a alegria.
Quando no azul do céu cantava a cotovia,
Aos primeiros clarões vibrantes da alvorada
Transportava ao casebre o leite da manada,
Acordando, a assobiar e a rir pelos caminhos,
Os lebréus nos portais e as aves nos seus ninhos.
E à tarde quando o Sol, extraordinário Rubens,
Na fantasmagoria esplêndida das nuvens,
Colorista febril, lança, desfaz, derrama
O topázio, o rubi, a prata, o oiro, a chama,
Ele ia então sozinho, alegre, intemerato,
Conduzindo a beber ao trémulo regato,
A golpes de verdasca e gritos estridentes,
Num ruidoso tropel os grandes bois pacientes.
O seu olhar azul de limpidez virtuosa,
Onde brilhava a audácia heróica e valorosa,
A candura infantil e a inteligência rara,
O timbre da sua voz imperiosa e clara,
A linha do seu corpo altivamente recta,
Tudo lhe dava o ar soberbo dum atleta
Em miniatura.



A velhice do padre eterno
Guerra Junqueiro
1885

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Cavaco sem espelho

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Cavaco vê com "apreensão o desprestígio da classe política" http://dn.sapo.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1701484

Formigarras explica porquê:


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Caça votos dos Cidadãos que não lêem jornais

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Fico à espera do comunicado da presidência a dizer do que Cavaco prescinde em nome desse sacrifício.

Dos aviões novos da FAP para os seus passeios à estranja, já meteu a viola no saco.

O ordenadinho está certo, assim como o regimento de serventuários do palácio presidencial que lhe servem os almoços e os jantares a horas certas à conta de todos nós. Vai prescindir deste serviço à pátria???

Já agora, quem paga as fatiotas de sua ecelência e de sua ecelentissima esposa?

Acredito neste presidente-ideólogo da repartição justa quando ele abdicar de todas as suas reformas, visto que está no ativo.

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quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Caloteiro afasta-se de Belém a alta velocidade


O senhorio do imóvel arrendado em Lisboa à candidatura presidencial de Fernando Nobre, para sede nacional, alegou que o inquilino deve 106 mil euros, correspondentes a oito meses de renda em atraso, e não apenas um mês como avançou o candidato. http://www.cmjornal.xl.pt/noticia.aspx?contentID=F67EC44F-9156-48E4-9D70-15911B233C13&channelID=00000021-0000-0000-0000-000000000021

Além de caloteiro está, no míííínnnimo, mal informado, mas custa a crer que ignore a dívida.

Os políticos distorcem factos, camuflam situações e são muito elásticos nas interpretações que transmitem ao Zé Povinho e muitas vezes safam-se.

Mas, quando se trata de dinheiro, as suas más contas pagam-nas na contabilidade eleitoral, com língua de palmo.

Nobre pode já fechar a loja e ir para casa, pois terá, com este episódio, uma votação residual.

Por sorte, lá está a família instalada na AMI para o consolar.

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Dependência guineense

Presidente já saiu do hospital e está instalado em residência oficial do Senegal http://www.noticiaslusofonas.com/view.php?load=arcview&article=28677&catogory=Guiné Bissau

Mais uma vez de mão estendida à caridade. Já para lá foi no avião presidencial (!!!) senegalês.

Um povo que lutou de armas na mão pela independência, está hoje totalmente dependente da ajuda externa e em vias de se tornar um protetorado.

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terça-feira, 2 de novembro de 2010

Juízes dão triste espetáculo de pantomina


Juízes fazem visitas guiadas para mostrar como trabalham


O objectivo é explicar o modo como trabalham os magistrados, as dificuldades que sentem e também o motivo das suas reivindicações contra os cortes nos salários e subsídios previstos no Orçamento do Estado para 2011…. A iniciativa foi aprovada em assembleia-geral da Associação Sindical dos Juízes Portugueses. http://dn.sapo.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1700652

Também explicarão aos visitantes porque razão elaboram sentenças quilométricas que, noutros países, têm umas poucas linhas?

E justificarão a doentia morosidade dos processos, ou isso é exclusiva culpa do legislador e dos escriturários?

Conto que a explicação inclua a divulgação dos salários dos ditos magistrados. Cá por mim, ficarei à espera que o meu guia exiba a prova documental do que recebe por mês. Ordenado limpo, para o comparar com o que ganham outros portugueses.

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72 casamentos a mais

Há 72 divórcios por dia em Portugal http://dn.sapo.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1700466

Se os noivos optassem por juntar os trapinhos e as suas famílias não fossem nem vaidosas nem clientes do senhor prior, outro galo cantava. Nem dariam oportunidade ao DN em titular estatisticamente.

E o que não poupariam em papéis e emolumentos, ansiedade e choros de mãezinhas e ameaças dos sogros compadres!

Até podiam vestir a farda oficial e convidar os amigos para festança do acasalamento. Mas passando ao largo de igrejas e conservatórias.

!!!

Formatação precoce


AP/ Aijaz Rahi, 31-08-2010
Um menino monge tibetano na bicha para ver o seu líder espiritual, o Dalai Lama, durante a primeira assembleia geral nacional realizada no mosteiro de Bylakuppe (Índia).
http://www.elpais.com/fotogaleria/Fotos/dia/elpgal/20100817elpepuint_1/Zes/4

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segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Virgens prometem e cumprem


Classificação enganosa do azeite

O presidente da Associação de Olivicultores de Trás-os--Montes e Alto Douro, António Branco, alerta que o produto rotulado apenas de "azeite" contém só 20 por cento deste produto, sendo o restante constituído por outros óleos alimentares. As embalagens de azeite puro têm a referência "virgem" ou "extra-virgem". http://dn.sapo.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1700150

Seja da União Europeia ou do governo português, esta classificação é profundamente desonesta. O tão saudável azeite não o ser quando lhe chamam azeite é de doidos. Só gente desonesta propõe e aprova uma mistela com um nome honroso.

A saúde pública é ferida com esta manipulação. Basta lembrar como são recomendados os fritos em azeite em detrimento dos óleos. Ora se o mal apelidado azeite tem 80% de óleos...

Trata-se de uma fraude embrulhada em leis e regulamentos e um servicinho que os poderes de Bruxelas ou de Lisboa prestam aos também aldrabões produtores da mixórdia.

Obrigado Senhor Branco, pelo alerta.

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Estado de sítio para expulsar juízes grevistas

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Há juízes que fazem greve. Juízes que são titulares do órgão de soberania Tribunais.

É indigno, é irresponsável e não pode ser tolerado. Juízes deste jaez não podem pertencer à magistratura.

Enquanto a Constituição não é revista para, expressamente, proibir a greve de quaisquer titulares de órgãos de soberania, há que tomar medidas.

Na primeira greve que for declarada pelos juízes ou a que algum adira, o Presidente da República, ouvido o Governo e a AR, que declare o estado de sítio com fundamento na perturbação da ordem constitucional. Entretanto, ao abrigo da cooperação estratégica uma Lei de exceção correrá com tais juízes.

Assim, o PR garantirá, como lhe compete, o "regular funcionamento das instituições democráticas".

O folhetim jurisdicional que se lhe seguirá, esse, é outro capítulo, mas com os juízes na ordem Portugal fica mais seguro.

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Uma caricatura de candidato



Não descortino o nome do autor, a quem é devida uma chapelada pela qualidade do seu traço.

O gesto do figurado é também digno de nota, pois retrata bem os serviços que o poeta de voz cava tem prestado ao seu partido.

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Trocadilho ambientalista