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domingo, 4 de julho de 2010

O comando

Como homenagem a Pedro Barroso, o autor desta grandiosa reflexão, recomenda-se uma leitura pausada, ponderada.











O sexo comanda a vida


Os jogos começam cedo
no descobrir colectivo
no gesto subentendido
no procurar sem saber


Tanta falta, tão escondida
tanta mentira mentida
tanta busca de aprender
e a vontade a mandar,
e os adultos a não querer
e as coisas a acontecer...


Depois, vem o corpo e manda;
vem a sorte e o acaso
mais a vida convivida
que nos ensina sabores
preferências e valores
coisas que vão dar azo
a uma culpa indefinida...


Paixões, ímpetos, calores,
amores breves no recreio
aventuras sem ter freio
- E o sexo comanda a vida


E desculpa-me Gedeão
homem maior, professor,
há momentos em que creio
que mais que o sonho e o valor
mais que o talento ou a dor
mais que a vida acontecida
mais mesmo que o próprio amor
mérito, glória ou louvor.


Tem dias, secretos dias
tem horas, secretas horas
momentos acres, desejos.


Em que nos vem um ardor
uma razão cá de dentro
mais forte que o pensamento


Soprando mais do que o vento
na montanha mais subida.


Nesses momentos sabemos,
neste modo em que vivemos,
que o sexo comanda a vida...


Não que não sonhe a justiça
sonho perfeito de mim;


Não que não busque valores
exegeses superiores.


Mas olhando à minha volta
o desejo que anda à solta
mais a raiva fratricida
não posso deixar de ver.


Na cupidez, nos negócios
nas promoções, no valor
que faz subir e descer
esta bolsa do viver.


Nem certeza, nem verdade
nem riqueza garantida
Ai amigos! Ai cidade!
- O sexo comanda a vida.


Essa menina bonita
que rebenta de esplendor,
no rolar lento das ancas
no lamber sábio da boca
vai ter muito mais valor.


Que o valor que nada vale
dessa outra, assustada,
sabedora das matérias
competente e aplicada


Mas borbulhenta, feiosa,
sem graça, quase fanhosa
vinte valores no trabalho
mas negativa no jeito
sem lábios, quase sem peito...

- Que lugar vai ter? Que saída?

- Cientista, tradutora?

- Excelente investigadora?


Ai, desculpa-me, Gedeão
que injustiça tão sofrida
não há respeito sequer
é difícil ser mulher!
- Mas o sexo comanda a vida.


Mas cara amiga, te digo

Se o jovem executivo
que te é apresentado
alto, composto, perfeito
elegante, bem vestido
encadernado a preceito


Apertar a tua mão
de um jeito mais que estudado
e te sorrir num bailado
e te falar no ouvido.


É mais que certo e sabido
perante um cantor de fado
não há norma na medida
nem recato nem respeito
nem olhar bem comportado
Tu sentes calor no peito!...
- O sexo comanda a vida...


E se pensam que a razão
a busca da tal subida
é a riqueza, o dinheiro
ter carros, poder, fortuna
e a vida favorecida...


A mim, dá-me a sensação
que o sucesso financeiro
é só uma contribuição.


Apenas mais um caminho
para servir na corrida
acessória à sedução.


Pois desculpa-me Gedeão
mais que o sonho a que presida,
por desgoverno, paixão
loucura fútil, pressão,
por estupidez animal...


Ditadura visual
ou pecado venial
da tal utopia querida
nada sobrou, nem moral.
- O sexo comanda a vida!




in Sensual Idade, CD, 2008

















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segunda-feira, 14 de junho de 2010

No corpo feminino

.
No corpo feminino, esse retiro
- a doce bunda - é ainda o que prefiro.
A ela, meu mais íntimo suspiro,
Pois tanto mais a apalpo quanto a miro.

Que tanto mais a quero, se me firo
Em unhas protestantes, a respiro
A brisa dos planetas, no seu giro
Lento, violento... Então, se ponho tiro

A mão em concha - a mão, sábio papiro,
Iluminando o gozo, qual lampiro.
Ou se, dessedentado, já me estiro,

Me penso, me restauro, me confiro,
O sentimento da morte ei que adquiro:
De rola, a bunda torna-se vampiro.


Autor: Carlos Drummond de Andrade

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domingo, 30 de maio de 2010

Epitáfio de Manuel Maria



Manuel Maria du Bocage



Lá quando em mim perder a humanidade
Mais um daqueles que não fazem falta,
Verbi gratia – o teólogo, o peralta,
Algum duque, ou marquês, ou conde, ou frade:


Não quero funeral comunidade,
Que engrole sub venites em voz alta;
Pingados gatarrões, gente da malta,
Eu também vos dispenso a caridade:


Mas quando ferrugenta enxada idosa
Sepulcro me cavar em ermo outeiro,
Lavre-me este epitáfio mão piedosa:


“Aqui dorme Bocage, o putanheiro:
passou vida folgada, e milagrosa;
comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro.”

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quinta-feira, 27 de maio de 2010

Bojudo fradalhão

Serviço público cultural

Bocage



Bojudo fradalhão de larga venta,
Abismo imundo de tabaco esturro,
Doutor na asneira, na ciência burro,
Com barba hirsuta, que no peito assenta:


No púlpito um domingo se apresenta;
Prega nas grades espantoso murro;
E acalmado do povo o grã sussurro
O dique das asneiras arrebenta.

Quatro putas mofavam de seus brados,
Não querendo que gritasse contra as modas
Um pecador dos mais desaforados:


“Não (diz uma) tu, padre, não me engodas;
sempre me hás de lembrar por meus pecados
a noite, em que me deste nove fodas!”

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quinta-feira, 20 de maio de 2010

Serôdia paixão da meia idade



Serôdia paixão da meia-idade
me desbravou o peito insanamente
com uns olhos da cor da mocidade,
com uns lábios que beijei sofregamente.

O amor não escolhe tempo nem idade,
é doce mal que cresce de repente
e que a mim trouxe também a ansiedade
de na cama me mostrar incompetente.

Porém, estudei o caso em que envolvido
me achei, meio achado meio perdido
e tive a calma visão dos seus contornos

era só questão de tempo ela encontrar
outro burro mais novo a quem se dar
deixando-me a roer um par de cornos...


Autor: Fernando Correia Pina

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domingo, 25 de abril de 2010

Prazer maior

25 de Abril, Sempre!

Hino à Liberdade


Bocage



Amar dentro do peito uma donzela;
Jurar-lhe pelos céus a fé mais pura;
Falar-lhe, conseguindo alta ventura,
Depois da meia-noite na janela.


Fazê-la vir abaixo, e com cautel
Sentir abrir a porta, que murmura;
Entrar pé ante pé, e com ternura
Apertá-la nos braços casta e bela.


Beijar-lhe os vergonhosos, lindos olhos,
E a boca, com prazer o mais jucundo,
Apalpar-lhe de leve os dois pimpolhos.


Vê-la rendida enfim a Amor fecundo;
Ditoso levantar-lhe os brancos folhos;
É este o maior gosto que há no mundo.

Autor: Bocage

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segunda-feira, 19 de abril de 2010

Seios


Sofia, eu no teu rosto busco espelho,
Enquanto beijo os nós dos teus artelhos,
Enquanto tocas com teus pés meus seios.

E o corpo sabe: sou-te assemelhada,
E leva o pé à tua coxa amada,
Sou presa seduzida por teus cheiros.

E o corpo sabe o quanto é aquecido
Meu pé que sobe dentro do vestido,
Sorrindo do macio dos teus pentelhos.

E o corpo sabe: sou-te parecida,
Toco a mim mesma ao te tocar, amiga,
Se pouso, enfim, os dedos nos teus seios.

E o corpo sabe bem que sou-te gêmea
Me fazes louca, lúcida ou boêmia,
No gesto em que se unem nossos seios.

Sofia, no meu rosto tens espelho,
De quanto bem me faz amar teus seios
.


Autora
Patrícia Clemente
*****

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Namorado desmaiado



Num banco de jardim estava eu,
sentado ao lado dela a namorava.
O lago era cetim, veludo o céu,
Cupido com mil setas me alvejava.

Já envolto naquele fogo que arde
sem se ver, debaixo das cuecas,
esperava passar a longa tarde
entre beijos, apalpões e meias-lecas.

Apaixonado disse à mulher amada :
estreita-me mais no teu abraço,
aperta contra o meu teu coração.

E vai daí a gaja ergueu o braço
e o pivete me cravou um tal cagaço
que desmaiado logo tombei no chão.


Autor
Fernando Correia Pina

*****

segunda-feira, 12 de abril de 2010

O pincel de Aleixo

O pincel
MOTE

Fui uma noite pintar
Com um caneco empretado;
Eu pintei sem reparar,
Pintei e fiquei pintado.


GLOSAS

Eu comecei com jeitinho
A compor o ramalhete;
Primeiro foi com azeite
E depois foi com cuspinho.
No começo era estreitinho,
Custava o pincel a entrar...
Começa a dona a gritar:
"Não me parta a tigelinha",
Mas que coisa engraçadinha,
Fui uma noite pintar...


Comecei devagarinho...
Quando fui ao outro mundo
Meti o pincel ao fundo
E parti o canequinho.
Até mesmo o pincelinho
Veio de lá todo pintado,
Eu já estava desmaiado,
Perdendo as cores do rosto;
Mas pintei com muito gosto
Com um caneco emprestado.


Vem a mãe toda zangada:
"Tem que pagar-me a vasilha...
No caneco da minha filha
Não pinta você mais nada...
...Lá isto, a moça deitada,
Sem poder levantar-se,
Com tanta tinta a pingar
No lugar da rachadela!..."
"Diga lá, que desculpe ela,
Eu pintei sem reparar!"...


P'ra que vejam que sou pintor
E meu pincel nunca deixo;
P'ra que saibam que o Aleixo
Não é somente cantor...
Também pinto qualquer flor
E faço qualquer bordado;
Mas aqui o ano passado,
Perdi, de pintar, o tino...
Fui pintar, fiz um menino,
Pintei e fiquei pintado.

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terça-feira, 6 de abril de 2010

Bocage erótico


Trocando as voltas à "cultura" sonsa.




"Apre! Não metas todo... Eu mais não posso..."
Assim Márcia formosa me dizia;
– Não sou bárbaro (à moça eu respondia)
Brandamente verás como te coço:

"Ai! por Deus, não... não mais, que é grande e grosso!"
Quem resistir ao seu falar podia!
Meigamente o coninho lhe batia,
Ela diz: "Ah, meu bem! meu peito é vosso!"

O rebolar do cu (ah!) não te esqueça...
Como és bela, meu bem! (então lhe digo)
Ela em suspiros mil a ardência expressa:

Por te unir faze muito ao meu embigo;
Assim, assim... menina, mais depressa!...
Eu me venho... ai Jesus!... vem-te comigo!

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sábado, 3 de abril de 2010

segunda-feira, 29 de março de 2010

Contrastes artísticos

Lempika

Campbell-Boileau

Millais

Manet

Toulouse-Lautrec

Pantoja de la Cruz

Há quando tempo não vai a um museu? São caros!? A crise…

Deixe-se de desculpas, as entradas são gratuitas aos domingos de manhã.


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Grande Gedeão

Só um Grande ser humano escreve esta grande obra.



Para pensar.

Os meus olhos são uns olhos,
e é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos,
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.


Quem diz escolhos, diz flores!
De tudo o mesmo se diz!
Onde uns vêem luto e dores,
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.


Pelas ruas e estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros gnomos e fadas
num halo resplandecente!!


Inútil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos!
Onde Sancho vê moinhos,
D.Quixote vê gigantes.


Vê moinhos? São moinhos!
Vê gigantes? São gigantes!"


Impressão digital

Com o agradecimento ao Fernando, que me indicou o poema.

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sexta-feira, 12 de março de 2010

Rui Palha: Fotografia de Qualidade


Por ocasião da abertura do Estúdio 14a, terá lugar a inauguração da exposição de Fotografia "Tributo".

Conheço algum do trabalho de Rui Palha, pelo que esta exposição é do tipo A não perder.
.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Belas obras de arte

Jennifer Garant tem um estilo, temas e tintas que mostram uma observação meticulosa das suas fontes de inspiração.







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